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Entrevistas

Otto Rezende (PSD): “Sou presidente da Câmara e vamos fazer com que ela seja respeitada”

Mais uma entrevista especial e exclusiva com os vereadores e vereadoras de Mogi das Cruzes.

A proposta é você conhecer quem está na Câmara da cidade e os pensamentos e projetos dos políticos.

O bate-papo desta quinta-feira (25/02) é com o atual presidente da Câmara Otto Rezende (PSD).

Queria começar essa conversa entendendo e conhecendo mais da vida do senhor.

Minha família é tradicional em Mogi da Cruzes. Somos mais de 300 parentes na cidade. É a família Brasil e Rezende. De escola pública com nomes de tias, têm umas oito. Sou bisneto do Raul Brasil, a escola de Suzano onde teve aquele incidente horrível. Dois bisavôs meus foram prefeitos em Guararema. Meu avô foi vereador aqui em Mogi das Cruzes. Minha irmã Carla também foi vereadora por aqui. Tenho mais duas irmãs – uma sempre foi dentista da Prefeitura de Mogi no Rodeio – e a outra é advogada. Sou médico imunologista, formado na Federal do Rio de Janeiro, com pós-graduação em Imunologia e Alergia. Fiz Saúde Pública por conta de trabalhar com a parte política e entender um pouquinho mais. E sou pós-graduado em Cooperativismo.

Trabalhei no Luzia de Pinho Melo de 2005 a 2015, mas antes disso fui chefe de plantão do pronto socorro do Hospital Ipiranga, na época, o único hospital com portas abertas para atender as urgências e emergências. Trabalhei também no Hospital Santana e sempre tive uma clínica onde atendo os pacientes de imunologia e alergia.

O senhor vem de uma carreira médica, mas sua família sempre esteve perto da política. Como o senhor sai dos consultórios e entra nos gabinetes?

Na faculdade eu era do Diretório Acadêmico e, quando voltei para Mogi, meu pai era secretário de Esporte e Turismo em Suzano e fez o time campeão da Hoescht.

Ele era do MDB e saiu candidato em Mogi para ajudar o partido, mas teve poucos votos. Prometi que ia ajudá-lo a arrumar alguns votos para ele. Passados quatro anos, fui perguntar para ele “e ai? Vamos sair candidato a vereador e agora para ganhar?”. A minha irmã Carla tinha uma proposta dos moradores de César de Souza para ela ser a candidata do bairro para ajudar o Posto de Saúde da Vila Suissa. Transferi então tudo o que eu tinha captado para ela ser eleita. Elegemos a Carla vereadora de 1996 a 2000 e por ela ser muito dedicada à medicina, não gostou muito da nova profissão.

Então ela chegou para mim e disse que, como eu gostava mais, ela iria me apoiar. Em 2000, ela não quis mais. Eu não saí como candidato, mas nós fizemos duas vereadoras: a Karina e a Vera Rainho, ambas pelo PSL. Em 2002, tive a oportunidade de estar junto com o Enéas Carneiro para sair deputado federal e ser um dos cinco deputados que ele elegeu, mas declinei para poder em 2004 ter o partido na minha mão para que, ai sim, eu pudesse sair como vereador.

Naquele ano, o Dr. Gondim pediu o PSL e saiu pelo meu partido, mas acabamos nos desentendendo e a oposição – que era o Junji Abe – ganhou a prefeitura. Em 2004, eram 21 vereadores, mas quando caiu para 16, eu era o 18º e fiquei fora. Em 2008, fui o primeiro suplente e, em 2016, fui eleito e agora estou no meu segundo mandato.

Mogi é uma cidade muito grande e que vem se desenvolvendo bastante nessas últimas décadas e, claro, os problemas aparecem. Quais são os principais problemas que o senhor acredita que precisam ser enfrentados?

A cidade precisa melhorar a Segurança, principalmente na periferia.

A Saúde precisa de uma gestão totalmente nova porque nós estamos com uma gestão boa, uma das melhores do Alto Tietê, mas tem que movimentar e começar a fazer com que este movimento mantenha a gente neste patamar. Estamos há muito tempo sem novidades.

Com a Covid-19, tudo está parado e estamos represando uma quantidade imensa de procedimentos cirúrgicos, assim como todas as especialidades que também estão paradas. Precisamos liberar o Hospital de Brás Cubas para isso.

Precisamos de um local para atender a Covid-19 do Alto Tietê inteiro – e já sugeri para que seja o Dr. Arnaldo. Os Postos de Saúde estão todos abandonados e nós precisamos reativar e dar finalidade e função para eles – e é neles que, ao meu ver, entrariam as especialidades. Por exemplo: temos 3,5 mil diabéticos que tomam insulina e não temos um endocrinologista para atender essa demanda. Se você quiser montar um serviço de endocrinologia para 800 consultas por mês, que não seria o total, mas que já seria algo muito importante, o custo sai menos de R$ 100 mil para o município, o que não é nada.

Temos metade da população idosa com problemas cardíacos e hipertensos e não temos um ambulatório específico de cardiologia. Temos um serviço bom de oftalmologia no Luzia de Pinho Melo. Fechou o pronto socorro e a urgência para algumas consultas no Luzia e ainda fechamos a pediatria no Hospital de Brás Cubas: hoje você atende em uma sala ínfima aqui no Mogilar, no Pró-Criança, em um espaço com menos de 20 metros quadrados e coloca todas as crianças de Mogi ali dentro.

Precisamos reativar tudo e pensar como vamos fazer. Deve dar um trabalho danado: o Dr. Henrique Naufel deve estar com o cabelo mais branco ainda por causa da Covid-19, mas não mais somente a pandemia. Ela não vai acabar agora. Precisamos reativar tudo.

Então, Segurança e Saúde são os problemas macros, mas há problemas em todo lugar: tem goteira no Terminal Central e no Estudantes, por exemplo. A gente sabe de tudo isso, mas eu não sou o Executivo. A gente faz indicações e ofícios para o Prefeito saber de tudo. Mas não dá para ficar batendo nele por esses problemas pequenos, apesar da gente comunicar. Agora, os problemas grandes, são esses: Segurança, desemprego… A gente está com o nosso ISS absurdo de quase 5% e tem que resolver – se não a gente começa a cobrar imposto alto, caso do IPTU, para poder suprir a saída dessas empresas, indústrias e lojas.

O senhor é hoje o presidente da Câmara. Queria saber como foi a escolha pelo seu nome e qual será o tom do seu mandato de um ano à frente da Casa?

Estou 56 anos, mas tenho um sonho de jovem que é fazer com que as coisas funcionem regradamente, democraticamente, honestamente, com a participação de todos e transparente. Esse sonho não acaba e nunca acabou.

A gente sabe que são 23 vereadores e que a coisa mais difícil é uma renovação de todos. Onde tem uma laranja um pouquinho mais madura ou mais estragada é mais fácil contaminar as outras do que tirá-la. A população, com as redes sociais, clama por mudança – visivelmente sim, não sei intimamente.

Nós tivemos a oportunidade de termos 14 vereadores novos e pensei que essa é a minha oportunidade de transmitir para eles as coisas boas. A gente julga que é a oportunidade de fazer mudanças. São 14 pessoas que você pode orientar de forma que julgue correta. Pensei: “vou sair presidente da Câmara para ter a oportunidade de começar uma coisa do zero e deixar um legado que acredito ser o correto para o andamento da Casa”. É começar do zero, tirar alguns vícios da Câmara… Foi isso que me propus fazer aqui na Casa.

Não é fácil: tenho vindo no sábado, domingo, feriado e conversado com todos os vereadores. Com os antigos é um pouquinho mais difícil, mas eles têm sido bem cooperativos. E a gente tem tentado mudar e fazer as coisas certas.

O senhor falou um pouco sobre a renovação. O quão importante é isso para o bom andamento da Câmara? Como o senhor analisa essa mudança de rota da Casa? Acredita que possa ser positivo para o desenvolvimento da Câmara?

É importante porque, se não há essa mudança toda, dificilmente você consegue fazer qualquer tipo de mudança na Casa porque ninguém quer sair do lugar cômodo. Hoje, você mostra o certo e, como os novos nunca viram o errado, aquilo vai ser o certo. Digo que estamos fazendo desse jeito e eles não vão ter o comparativo. Mas acredito que eu esteja fazendo a coisa certa e mostrando o caminho correto.

Claro que não vou ter elogios de nenhum deles porque eles não sabiam como era antes – não vai ter parâmetro. Mas tenho passado essa tranquilidade para eles e eles têm confiado em mim, tanto é que me elegeram presidente da Casa.

E o diálogo tem sido bom com a Câmara como um todo?
Acredito que sim. O que eu escuto muito aqui é que a gente não tem um tom muito político para conversar – e sim um tom mais de amigo. Acredito que o caminho é esse. Claro que a gente sabe os caminhos políticos e, se precisar, a gente vai usar, mas não é isso que a gente quer: queremos conversar, explicar, mostrar o caminho certo e, no fundo, todo mundo quer este caminho.

Sobre a presidência da Câmara: quando teve a eleição, a vereadora Inês Paz (PSOL) colocou-se como candidata e falou bastante sobre a necessidade da Casa ter uma mulher no comando. Outros vereadores comentaram e concordaram com isso. Como o senhor vê essa possibilidade?

Sou pai de três meninas, tenho três irmãs e tenho uma mãe. Não vejo essa situação de “por que elas não são presidente?”… Elas vão ocupando os espaços e cada uma com suas características. Tento olhar muito mais pela pessoa, sabe? Não vejo muitas mulheres querendo ser presidente. Vejo elas querendo ajudar, trabalhar, fazer acontecer e às vezes elas falam “não vou querer ser presidente não. Acontecendo o que eu quero, pra mim tá ótimo. Não tenho essa preocupação”. Talvez seja por isso que elas não venham a ser presidente.

A Inês Paz (PSOL) mostrou o o desejo de ser presidente e estamos acompanhando. Claro que para ser presidente você precisa de 22 votos e não é nada fácil – e às vezes o homem tem um pouquinho mais de facilidade porque a grande maioria é homem. Às vezes uma amizade e um direcionamento político leva a continuar o homem sendo presidente.

Mas as mulheres têm todos os espaços aqui dentro: elas são presidente de Comissões, elas quando falam, todo mundo escuta. Não vejo muito problema quanto a ter uma presidente, uma prefeita, uma presidente da República mulher. Acho que vai chegar a hora naturalmente.

Na teoria política, o PSD teria um viés mais de oposição por não ter apoiado o projeto político do atual prefeito Caio Cunha. Queria que o senhor falasse um pouco sobre como o partido está se posicionando dentro da Casa em relação ao Executivo e como está essa relação entre os dois poderes.

A liderança do nosso partido, o deputado federal Marco Bertaiolli (PSD-SP), já sinalizou para que o PSD caminhe junto com o prefeito Caio Cunha para que a gente possa ter uma cidade cada vez melhor. Tudo que for possível o PSD ajudar na gestão, o partido vai estar junto.

Eu sou presidente da Câmara Municipal e vamos fazer com que a Câmara seja respeitada – e é verdade que nós vamos fazer tudo para que o Caio seja o melhor prefeito de Mogi para que a nossa cidade cresça.

Porém, nós temos uma função: recebo um salário para fiscalizar o prefeito e fazer com que as coisas tenham a sua normalidade. E é o que estou fazendo aqui, com toda a transparência do mundo, podendo conversar e discutir os assuntos com todos os vereadores, com o prefeito e, no que for possível, vamos fazer com que a cidade cresça e o Caio seja o melhor prefeito da região.

O senhor acredita que é possível um diálogo com o Executivo, mesmo com uma Câmara tão diversa? Como será isso?

Acredito que o diálogo tenha que ser entre o Executivo e a Câmara Municipal. Quando o diálogo começa a fugir muito disso, cria-se um imbróglio e, efetivamente, não temos as ações.

É o prefeito, junto com seus secretários, trabalharem tudo o que for possível para melhorar a cidade e a Câmara ter esse diálogo com eles em forma de instituição, para que a gente possa ter uma cidade boa, e não em diálogo um por um. Quando falo de diálogo é Executivo e Câmara, independente de quem estiver como presidente da Casa ou dos vereadores.

A discussão tem que ser global porque, aqui dentro da Câmara, ela tem que ser com os 23 vereadores – o Executivo não pode vir aqui e pegar opiniões separadas.

Quando falo em transparência e união da Câmara é isso: termos as discussões e a liberdade para discutir e, quando dermos uma resposta, daremos ela de maneira única e para que a cidade cresça.

Sinto que, neste começo de mandato do prefeito, há alguns ruídos que podem prejudicar o Executivo: polêmicas com a Sinfônica de Mogi das Cruzes e a regional de Sabaúna; o processo de impeachment do prefeito; a indicação do secretário-adjunto de esportes e a sua saída; suspeitas na limpeza do piscinão… São “coisinhas” pequenas e que atrapalham. Como o senhor tem visto este primeiro momento do prefeito Caio Cunha?

Esses primeiros 50 dias do Caio têm sido bom, para quem nunca foi prefeito, que precisa mudar a grande maioria das secretarias e o direcionamento, que nunca foi Executivo e que veio do Legislativo sempre batendo e do contra e agora vai ter que sentar e realizar as coisas… ele está indo bem. Acredito que daqui um tempo ele vai entender mais ainda da função que ele recebeu e as coisas começam a andar em um fluxo melhor.