Connect with us

Entrevistas

Pedro Komura (PSDB): “Temos que nos unir e trabalhar pelo bem da cidade”

Segunda-feira (22/02) com mais uma entrevista exclusiva com os vereadores e vereadoras de Mogi das Cruzes.

A proposta é você conhecer quem está na Câmara da cidade e os pensamentos e projetos dos políticos.

A conversa de hoje é com o vereador mais antigo da casa: Pedro Komura (PSDB).

Vereador, queria começar essa conversa com o senhor explicando um pouco da sua história.

Minha família é de agricultores e somos nove irmãos. Meus pais chegaram no Brasil em 1929. Como todo imigrante, foram para o interior na região de Araçatuba em Mirandópolis e ficaram até quase 1950. Para dar educação aos filhos, meus pais vieram para perto de São Paulo e todos estudaram e fizeram faculdade pública. Tenho três irmãos engenheiros, sou formado em Administração Pública na FGV, tenho um irmã formada em Enfermagem na Escola Paulista, enfermeira na USP e professora para a turma de mestrado e doutorado. Tenho ainda um irmão militar do Exército e hoje coronel da reserva.

Nasci em 1954 no Jardim São Pedro, em Cezar de Souza. Sempre estudei em escola pública. Fiz curso de Administração Pública na FGV e o professor falava que toda a decisão é política. Pensei comigo: “Se a decisão é política, precisamos interferir na política”. A FGV era um centro irradiador de política no final dos anos 70. A gente tinha palestra com o Fernando Henrique Cardoso, Suplicy… Na época da reorganização da União Nacional dos Estudantes (UNE), fiz parte da diretoria na FGV.

Sempre gostei de política – inclusive o meu primeiro trabalho foi como assessor de deputado na Assembleia Legislativa em 1979. Também trabalhava de noite e de madrugada no Banco do Brasil quando fazia faculdade. Nesta época, fui diretor do Centro Acadêmico. Sempre vivenciei a política. Depois, me formei e fui candidato a vereador.

Como o senhor sai da atuação acadêmica e entra para ser efetivamente um candidato?

Como já trabalhava com um deputado, eu o acompanhava e gostava. Foi natural. Mesmo morando e trabalhando em São Paulo, sai candidato à primeira eleição em 1982: tive 911 votos – faltaram 30 votos para ganhar. Depois em 1988 sai de novo e ganhei. 

Nesta última eleição, o senhor foi o sétimo mais votado e está na Casa há mais de 30 anos. O senhor poderia falar um pouco dessa evolução política? 

Como sou formado em Administração Pública, levei um choque na primeira administração do prefeito Waldemar Costa Filho. Naquela época, recém-eleito vereador, fui fazer os pedidos para o prefeito eleito: asfalto, água, esgoto… Tudo que eu falava ele, ele dizia “não vou conseguir atender”. Toda vez ele falava “não tem dinheiro”. Eu pensava “não é possível”.

Procurei então meu colegas da FGV e uns professores para analisarmos o orçamento da cidade. Fizemos um diagnóstico do orçamento municipal e chegamos à seguinte conclusão: Mogi estava se tornando uma cidade dormitório onde o poder público não tinha capacidade de investir. O crescimento da população era maior que a capacidade da Prefeitura investir. Era a época em que começavam a surgir os primeiros pontos de favelas e bairros sem infraestrutura. Concluímos então que era preciso melhorar a arrecadação de tributos. Comecei a fazer este trabalho.

“Como se aumenta a arrecadação de impostos?”. Ou você onera ou busca outras formas. A principal receita municipal é o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). A gente precisava aumentar os empregos e crescer a arrecadação. Depois do diagnóstico, criamos uma Comissão Especial de Vereadores para criar empregos e trazer empresas para a cidade. Começamos a falar com as entidades de classe para que as empresas viessem para Mogi, mas não é fácil. Fizemos barulho e conseguimos trazer a GM no Taboão durante a gestão do Padre Melo. Depois conseguimos trazer a Rinai para a Vila São Francisco e mais ainda naquele corredor – mais tarde ainda trouxemos para Cezar de Souza. 

Neste meio tempo, teve um trabalho que deu resultado e foi por acaso. Um dia, fui comprar uma geladeira para minha mãe nas Casas Bahia, no centro de Mogi. Dois dias depois chega a geladeira e vejo a nota com a cidade de São Caetano do Sul. Isso me chamou a atenção. Fui pesquisar todas as grandes lojas da cidade e elas trabalhavam do mesmo jeito: eram showroom e, quando vinha a mercadoria, ela chegava do depósito. Pesquisei e mais de 20 lojas no centro da cidade faziam do mesmo jeito. O grosso da nossa arrecadação, que é o ICMS, não ficava na cidade – ia tudo para fora.

Fui então conversar com o meu professor que, na época, era secretário da Fazenda do Mário Covas. Um estudo foi feito e um projeto de lei foi enviado para a Assembleia Legislativa mudar a regra de cobrança do ICMS: em termos gerais, dizia que o imposto tem que ficar na cidade onde o produto é vendido e não de onde ele sai. Foi aprovado.

Com a arrecadação melhorando e a vinda das indústrias para Mogi, quando o prefeito Junji Abe entrou em 2001, os cofres da Prefeitura já tinham uma boa arrecadação.

Outro imposto importante é o IPVA, onde 50% vai para o governo do Estado e 50% fica para o município. Lá atrás, pesquisei e percebi que 40% dos carros novos e de melhor valor tinham placa de fora e o IPVA ia para outro lugar. Então, o então prefeito Waldemar Costa Filho chamou seus funcionários de confiança e mandou fiscalizar todos os carros. Na época do Junji, fizemos uma campanha para incentivar os mogianos a emplacarem na cidade porque este imposto revertia em creche, saúde, e ainda melhoraria a arrecadação de imposto. 

Tem ainda o ISS. Quando eu era funcionário do Banco do Brasil, sempre pensava que não era possível o banco pagar tão pouco. Fui verificar o imposto e detectei que algumas empresas pagavam o ISS em outras cidades. A sede do plano de saúde do Hospital Ipiranga, por exemplo, ficava em Poá e a empresa pagava 0,25% de ISS – em Mogi era 2%. As companhias prestavam o serviço aqui e recolhiam em outras cidades. Vi que a sede do Itaú, Citibank e de muitas outras grandes empresas prestadoras de serviços ficavam tudo em Poá ou na região de Barueri por ser mais barato. Comecei então um outro trabalho na Câmara e tive que conversar com os deputados sobre o imposto. Conseguimos então mudar a regra de cobrança do ISS no Brasil inteiro para acabar com a guerra fiscal entre os municípios: a mudança colocou o imposto mínimo de 2% em todo o país. Hoje, em Mogi, o valor está em 3% ou 4% e foi um tiro no pé porque nós perdemos muitas empresas.

A partir de 2001, Mogi vem melhorando na Educação, Saúde, Segurança… Isso é um pouquinho do trabalho que fiz: melhorar a arrecadação de impostos. É um trabalho que demorou 10 ou 12 anos e, hoje, graças a Deus, Mogi embalou. Estamos acima das outras cidades em nível de arrecadação porque fizemos a lição de casa.

Tive um trabalho para convencer os vereadores da importância da melhoria da arrecadação. E também os funcionários da Prefeitura. Hoje, Mogi embalou e tem uma Saúde melhor, Educação também. Por quê? Conseguimos melhorar essa base. É um trabalho que tenho orgulho de dizer que ajudei – começando por colocar na cabeça dos vereadores e do pessoal da Prefeitura a importância que é fazer tudo isso. É um legado que deixo para a cidade.

Sobre o emprego: vi que o senhor tem este tema como um dos pilares do seu mandato. Durante a pandemia, tivemos muitas demissões e diversas empresas fechando. Como o senhor enxerga este momento para a geração de empregos?

Estou fazendo um trabalho junto com minha filha e com o Sincomércio para criar uma plataforma que vai estimular o comércio na nossa cidade. Hoje tudo é virtual e quase não tem mais loja física. Temos que criar essa plataforma igual ao iFood. Você sabe onde é a sede da empresa? Na Praia Grande, e é para onde vão todos os impostos, e Mogi fica chupando o dedo. Estamos estudando junto com o Sebrae e o Sincomérico para criarmos esse aplicativo para fortalecer o comércio de Mogi.

Outro ponto forte da trajetória política do senhor é a agricultura. Como o senhor analisa o atual momento do setor e o que pode ser feito para melhorar ainda mais?

Hoje, o agricultor não pode mais ficar puxando enxada. Tem que usar tecnologia, senão ele não consegue competir. A agricultura 4.0 é a tendência mundial. É diminuir o agrotóxico, economizar água e energia e usar tecnologia intensivamente para melhorar a produtividade. Junto com algumas instituições e a universidade estamos atrás de pesquisa e tecnologia. Para você desenvolver uma orquídea de ponta e para o produtor ganhar dinheiro demora 10 anos. É muita pesquisa e investimento para ver se consegue fazer um produto que estoura. Precisamos ajudar e apoiar o agricultor nas pesquisas. Eles podem se associar e criar um laboratório, mas manter é muito caro – e precisa de 30 ou 40 funcionários. Não é fácil.

Fala-se muito da renovação da Câmara. O senhor que está na Casa há mais de 30 anos, como analisa este atual momento do Legislativo?

É muito importante a renovação. É o sangue novo com a vontade de trabalhar. Na Câmara, a gente tem que discutir a cidade. Eu, por exemplo, não deixei ter o confronto entre duas chapas: dos vereadores antigos e dos novos. Fatalmente iria porque o Otto Rezende (PSD) gostaria de sair de um lado e o Clodoaldo de Moraes (PL) e o Marcos Furlan (DEM) iriam para outro – estava pau a pau. No último dia, aos 45 minutos do segundo tempo, no dia da posse, eu falei: “Vamos fazer acordo. Não vamos para o confronto” porque já tinha visto este filme antes. Aconteceu isso na época do Machado e foram quatro anos que desandaram e não interessa para o município ficar essa briga toda. Importante é que a Câmara trabalhe junto com a Prefeitura para que tragam projetos bons e para que a cidade se desenvolva.

Como está sendo a relação do prefeito Caio Cunha com a Câmara?

Está sendo uma grata surpresa. O Caio não tem os compromissos com grupos empresariais que os outros prefeitos tinham e isso facilita o trabalho – e até mesmo aqui na Câmara. Houve essa renovação e isso fez com que arrebentassem as amarras. Se o Caio souber trabalhar, ele vai fazer um ótimo governo – virão muitas empresas para cá e te falo porque sou eu que estou cuidando disso. Com certeza vai surpreender. Não posso adiantar, mas são coisas muito boas que vão revolucionar a cidade.

O senhor é do partido do ex-prefeito Marcus Melo (PSDB), derrotado na última eleição. Neste cenário, como isso tem sido lidado dentro da Câmara? O senhor acredita que isso vá ser um problema?

Eu não deixo nada acontecer. Procuro chegar sempre num consenso. Existem divergências, mas na hora de pensar na cidade, vamos pensar nela. Temos que pensar em Mogi como um todo. Passou a campanha. Esquece essas brigas partidárias. A gente tem que pensar na cidade e eu foco nisso. Tenho conversado mais com o Caio agora do que quando ele era vereador. Os empresários estão vindo falar comigo. Por quê? Porque eles não podem errar nem perder tempo. Então, estou aproveitando para trabalhar e trazer mais empresas para a cidade.

Eu sei como funciona a Câmara e a Prefeitura e isso tem sido um facilitador – tanto é que os outros vereadores e os secretários vêm falar comigo. Está sendo muito produtivo e muito bacana em poder ajudar.

O senhor foi o 7º mais votado e está indo para o 9º mandato. Neste cenário, a população confia no senhor a mais de 30 anos. Qual o peso e a sensação disso? Como o senhor se sente com esta responsabilidade?

É uma responsabilidade muito grande. Agora, por exemplo, a eleição da presidência da Casa ia para um racha e eu vendo toda aquela situação pensei: “Isso não interessa. Ficar confrontando os quatro anos?”. Temos que nos unir e trabalhar pelo bem da cidade. Nós temos muitas coisas para resolver e, se a gente trabalhar juntos, vamos conseguir. 

Mogi vai dar uma arrancada muito forte. Estou sentindo isso. Os empresários estão se sentindo mais livres – e sei disso porque converso com eles e eram amigos do Marcus Melo. Eles também acham que foi importante para a cidade.

Qual é o legado que o senhor acredita que tem deixado para a cidade?

Política não tem segredo: é trabalhar e fazer o bem. A gente se sente bem em poder ajudar as pessoas que estão em dificuldade… É ensinar as pessoas a encontrar o caminho. Lido muito com o pessoal da zona rural e eles não sabem como chegar aos serviços – e a gente trabalha muito para ajudar quem precisa. Isso é muito gratificante. A gente dá muita orientação e apoio.

Pessoal acha que o vereador não faz nada – eu acordo todo dia às 5h, vou caminhar e o pessoal já começa a comentar sobre os problemas. Vai o dia inteiro, mas isso é gostoso. Eu gosto. Não gosto de ficar sentado: prefiro ficar na rua vendo tudo que está acontecendo. O importante é eu estar na linha de frente sempre ouvindo mais do que falando. Sou o vereador que mais anda na cidade: tem final de semana que ando mais de 200 quilômetros dentro da cidade. Gosto de ir aos locais e olhar.