Connect with us

Entrevistas

Edinho do Salão (MDB): “Quero ser o primeiro prefeito negro de Mogi das Cruzes”

Começamos a semana com mais uma entrevista exclusiva com os vereadores e vereadoras de Mogi das Cruzes.

A proposta é você conhecer quem está na Câmara da cidade e os pensamentos e projetos dos políticos.

Nossa redação já entrou em contato com todos e todas e aguarda a devolutiva de algunsA divulgação das entrevistas será feita conforme as entrevistas forem agendadas e feitas.

Hoje (08/02), o nosso entrevistado é o vereador Edinho do Salão (MDB).

O senhor poderia comentar um pouco sobre a sua vida?

Nasci em 02 de julho de 1980 em Mogi. Sou filho de mineiros: minha mãe de Mariana e meu pai de Conselheiro Lafaiete. Chegaram aqui para tentar a vida na cidade grande e para encontrar um refúgio para terem uma vida melhor. Casaram-se em 77 e tenho meu irmão André e a minha irmã Gislaine. 

Sou do Jardim Universo, bem no final do bairro e vivi a minha infância toda no Jardim Esperança e Vila Municipal. Estudei minha vida toda em escola pública de qualidade – era época da ditadura, tinha mais respeito, tinha hino nacional, a gente respeitava o professor. Era muito rígido. 

Comecei minha vida no comércio e hoje tenho barbearias, mas sempre gosto de frisar que comecei como servente de pedreiro aos 15 anos nas obras e só com 20 fui para minha carreira de barbeiro. A barbearia foi coisa de Deus, um achado. Nem imaginava que poderia cortar cabelo. Tudo começou através dos bailes black. Eu era jovem, ia muito nestes bailes em São Paulo e a rapaziada tinha os cabelos legais. Encontrei então um amigo que fazia esses cortes. Aprendi com ele, me dediquei e estou até hoje. 

Como a política entra na vida do senhor?

O jovem de periferia que nasceu nos anos 80 ouvia Bezerra da Silva, um cara bastante politizado e que falava sobre o sistema. A gente ouvia o Zeca Pagodinho que falava de amor e do sistema. E nos anos 90 chegou o rap no Brasil e surgiu o Thaide e DJ Hum, bem politizados. Chegaram os Racionais MCs que falavam sobre inclusão social e política. Foi o grupo DMN que me fez ter um olhar para a política – foram eles que me mostraram quem era Malcolm X e Martin Luther King e, quando conheci os dois, a política entrou na minha vida. No começo dos anos 90, as músicas dos Racionais faziam muito sucesso e falavam de política. Ou seja: foi bem através das letras do rap.

Como que a política avança na vida do senhor, saindo do entendimento das letras do rap para uma atuação política efetiva?

O hip hop faz a transformação através da arte, atuando bastante nas comunidades. As pessoas começaram a entender que, através dessas ferramentas, elas poderiam ser advogadas, comerciantes… Comecei então a acompanhar. Depois que montei meu estabelecimento comercial, passei a aprender sobre economia. Mas foi em 94 ou 95, através da música, que entrei para a política – e hoje entendo isso. 

E quando começa a sua atuação política?

Em 2010, quando fui convidado pelo Rodrigo Valverde, um grande amigo, para participar da campanha dele para deputado federal, e comecei a gostar. Depois, em 2012 trabalhei na campanha para vereador do Jean Lopes. Na sequência, vieram as manifestações de 2013 e eu era linha de frente e bem engajado: estava com o megafone na mão e falando. 

Quando foi que o senhor decidiu ser candidato? Como foi esse processo?

Ajudei o Rodrigo em 2010, o Jean em 2012, tiveram as manifestações em 2013, chegou 2014 e voltei a ajudar o Rodrigo. Foi então que deu um clima. As pessoas começaram a falar que eu deveria participar diretamente e me candidatar. Em 2015, decidi que tinha chegado a hora e me filiei ao PCdoB. Em 2016, me candidatei e tive 861 votos. Não me preparei muito, mas quando vi o resultado pensei: “Tenho chance”. Quando chegamos em 2018, tive a oportunidade de ser candidato para deputado estadual pelo PCdoB e consegui quase 2,5 mil votos. Agora, em 2020, fui para o MDB, virei presidente do MDB Cidadania e viemos preparados com um trabalho de inclusão social bem estruturado nos bairros. Tive 1.779 votos. Para muitos foi uma surpresa, mas a gente trabalhou bastante para isso.

Sobre o seu mandato: quais serão as suas bandeiras de atuação?

A minha bandeira é Mogi das Cruzes. O primeiro passo do nosso mandato será a inclusão social nos bairros. Quero estruturar os nossos projetos sociais de vários segmentos: dependentes químicos; pessoas em situação de rua; futebol para cerca de 300 crianças em cinco escolas de futebol. Quero tentar montar uma biblioteca comunitária em cada pólo desses projetos para ligar a educação com a inclusão social.

O senhor disse anteriormente que um dos seus projetos é com as pessoas em situação de rua. Como o senhor enxerga este assunto na cidade e o que pode ser feito?

Quando comecei a fazer este trabalho nas ruas, eu enxergava da mesma forma que a sociedade enxerga: que são vagabundos, não querem trabalhar e estão na rua porque querem. Então, começamos a fazer o projeto da Marmita Solidária e um pastor parceiro me explicou muito bem como era o cenário. Ele me disse que a marmita é só um pontapé e que a gente precisava transmitir o amor e conhecer de perto a realidade dessas pessoas. Na rua há pessoas bem estruturadas e muitas outras com depressão, por exemplo. A gente precisa fazer um trabalho psicológico e não apenas a marmita – as pessoas precisam ser acompanhadas. Temos também uma casa de recuperação e tentamos colocá-las lá para voltarem à sociedade.

Tudo me leva a crer que o senhor vai atuar bastante com a Assistência Social. O que o senhor espera da secretaria e da nova secretária Celeste Gomes?

Tenho acesso e carinho pela Celeste. Tenho conversado com ela e estamos estreitando as relações para fazermos um bom trabalho junto com a Assistência.

E quais são os principais problemas de Mogi?

A cidade é bem desenvolvida e vem crescendo – temos quase 500 mil habitantes. Do Alto Tietê, acredito que Mogi seja a cidade que mais cresce e muita gente procura pela cidade – o município tem sido um braço muito acolhedor. Pensando neste cenário, vejo que Mogi precisa de geração de emprego e segurança pública.


A Câmara mudou bastante e a renovação aconteceu, inclusive na questão da raça. O senhor é um dos poucos negros que compõe a Casa (juntamente com o Juliano Botelho). O quão importante é para o senhor ser um vereador negro e o quanto isso é fundamental para a representativade na Câmara?

A gente vive em um país escravocrata. Quando sai para vereador, ouvi das pessoas que eu não combinava com a Câmara por ser pobre e negro, mas a gente quebrou este paradigma. A raça negra está em grande ascensão. Até os anos 2000, você não via muitos negros na televisão e nas propagandas, por exemplo. A pessoa racista é doente – e lembrando que o racismo não está na periferia, está nas grandes escalas da sociedade. Se você trabalha em uma fábrica e você tem todas as qualificações para ser um diretor, as pessoas não vão deixar você ser. Como diz a Michele Obama: “Quando um negro chega no poder é porque ele andou 10 vezes mais que um branco”. 

Pensando nisto: o senhor acha que pode ser o primeiro presidente negro da Câmara?

Não só o presidente, mas como pode ser o prefeito. Independente de raça, crença ou cor, se você sonha, você alcança.

O senhor quer ser prefeito de Mogi?

Quero ser o primeiro prefeito negro de Mogi das Cruzes. Vamos ser: essa é a luta. A palavra tem poder.

E sobre a renovação na Câmara como um todo? O que o senhor achou?

Já vi a renovação em 2013. No Brasil, a renovação acontece naturalmente e não da noite para o dia. Na minha visão, começou em 2013 quando os jovens foram para as ruas e começaram a participar da política. A mudança é natural. Se você for pegar as cidades do Alto Tietê, todas as Câmaras tiveram mudanças. É no Brasil todo. Na Câmara de São Paulo, por exemplo, tivemos a primeira trans eleita – e em Belo Horizonte também. O povo está querendo representatividade.

Nesta nova legislatura, há uma grande diversidade de pensamentos e posicionamentos dentro da Câmara. Como o senhor acredita que vá ser o diálogo entre os vereadores?

Vimos a resposta das ruas: a urna disse que queria a gente aqui. A gente tem conversado bastante e o momento é disso mesmo: diálogo. Está sendo bom. A hora é de construir a cidade. Se você for ver, são 14 novatos – uma renovação muito grande e a maior da história.

Como o senhor vai se posicionar em relação ao Executivo? Será oposição? 

O MDB não apoiou o Caio nas eleições, mas, antes de tudo, tenho uma grande amizade com o prefeito e a gente sempre fala para ele: estamos aqui para construir a cidade. Se fosse o Marcus Melo ou o Rodrigo Valverde, estaríamos aqui também. A eleição, para mim, só tem 1º e 2º turno – 3º turno não existe. A gente tem que se unir e construir o melhor para a cidade.

E o que o senhor espera do mandato do prefeito Caio Cunha?

Espero o melhor dele. Quero que Deus o abençoe para que ele faça um bom mandato. Igual ele sempre diz: “Quero ser o melhor prefeito de Mogi das Cruzes”, assim como quero ser o melhor vereador.

O que o senhor quer deixar de legado?

As pessoas terão em mim uma grande referência. Elas vão entender que é possível e que nada é impossível nesta vida. Tudo é possível, basta crer e lutar que você vai conquistar. Quero ser referência para os excluídos. Um dia fui um excluído e hoje estou em ascensão. Espero que eles me tenham como referência.

O senhor falou sobre ser uma referência. Mas quais são as suas referências?

Me espelho muito em Malcolm X, mas tenho os pensamentos de Martin Luther King. O Malcolm X era muito radical e o Martin Luther King já era uma pessoa mais pacífica. Também tem a sabedoria de Gandhi. No Brasil, gosto muito do MV Bill quem tem o projeto da Central Única das Favelas (CUFA), que participo e quero trazer para Mogi. Tem ainda o Emicida, Racionais, Joaquim Barbosa e gosto da sinceridade do Faustão.